Ecumenismo aqui e acolá

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Juliano Ribeiro Almeida
22 de outubro de 2009

Bento XVI surpreende novamente com a decisão de acolher os ex-pastores anglicanos que acabam de aderir à Igreja Católica; eles receberão o sacramento da Ordem no grau de presbíteros mesmo sendo casados. Entre os clérigos que ingressam no catolicismo, há dezenas de bispos anglicanos; mas estes exercerão, na Igreja Católica, apenas o presbiterado, por serem casados (a Igreja Católica tem maior dificuldade de abrir mão do celibato para o episcopado, porque essa tradição remonta à prática primitiva dos cristãos).

Em todo caso, já é um passo e tanto! Aumenta pouco a pouco o número de “exceções” na lei do celibato, isto é, homens casados ordenados sacerdotes. No direito civil, isso geraria uma jurisprudência e abriria um precedente para se debater a lei geral.

Essa abertura – que é uma confirmação oficial do que João Paulo II já havia permitido caso a caso – mostra que o papa está levando a comunhão a sério; e está disposto a realmente abrir mão de alguns acessórios, por mais preciosos que sejam, para resgatar o essencial.

Ratzinger, logo que assumiu o sumo pontificado, abriu mão do título de “patriarca do Ocidente” em nome da amistosa relação ecumênica com os ortodoxos. Recentemente, reintegrou os lefebvrianos ao revogar sua excomunhão. E agora, declarou que vai visitar a igreja luterana em Roma, em comemoração aos 10 anos da declaração conjunta católico-luterana sobre a justificação (e por falar em luteranos, há que se acompanhar com expectativa o Conselho Ecumênico das Igrejas, que acaba de nomear um pastor luterano para seu secretário-geral; isso teoricamente aproxima a Igreja Católica dessa instituição ecumênica mundial, o que é outra novidade).

Impossível não reconhecer o empenho de Bento XVI pela unidade dos cristãos. O conceito de comunhão, para o Sumo Pontífice, é interessantíssimo: praticar o ecumenismo, para ele, não significa ceder ao relativismo ou abrir mão das próprias convicções; ao contrário, ser ecumênico é ser profundamente católico (as palavras são sinônimas e significam “universal”); portanto, Bento XVI pensa que quanto mais verdadeiramente católico se for, maior capacidade para o diálogo com o diferente se deve ter. Afinal, justamente porque a Igreja Católica não se vê como uma denominação entre as demais, ela entende ter a obrigação de tomar a iniciativa do reencontro, seguindo o preceito de Jesus: “Se você [...] se lembrar de que o seu irmão tem alguma coisa contra você, deixe a oferta aí diante do altar, e vá primeiro fazer as pazes com seu irmão” (Mt 5,23-24).

O importante num diálogo não é saber quem tem mais razão; e sim, quem está mais disposto a dialogar. O evangelho de Jesus Cristo é muito menos um tratado de ortodoxia do que um manual sobre tolerância e misericórdia. Por outro lado, eu só dialogo de verdade com o outro se eu souber bem quem eu sou, se eu me aceitar assim como sou.

A tática pastoral mais ousada do papa é a descoberta de que, no século XXI, faz ainda menos sentido que cristãos fiquem brigando entre si como adversários, enquanto o grande e verdadeiro inimigo da religião cristã em geral vem assolando a Europa e todo o ocidente: o indiferentismo religioso, com suas nuances entre o relativismo e o secularismo.

O lamentável é que, enquanto na Europa o ecumenismo avança e as comunidades vindas da Reforma Protestante criam laços cada vez mais estreitos com a Igreja Católica, a fim de construir entendimentos mútuos e abrir caminhos para a comunhão, na América Latina, ao contrário, fica cada vez mais difícil o diálogo entre católicos e evangélicos (entenda-se aqui sobretudo comunidades neopentecostais e do chamado tele evangelismo). Enquanto em diversas partes do mundo cresce a consciência da tolerância religiosa, entre nós o que vem crescendo é a incidência de monólogos arrogantes, com grande falta de respeito à liberdade religiosa alheia. Assim, a religião acaba deixando de cumprir seu principal papel, que é o de “religar” os homens ao sagrado e também entre si.

Dois acadêmicos incompatíveis

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26 de agosto de 2009

Quem assistiu ao filme Calígula pôde ver o nível moral a que chegou o senado no Império Romano. Nada mais grave do que estamos vendo no senado brasileiro. Os acontecimentos estampados nas últimas semanas nas manchetes expõem ao completo ridículo essa instituição republicana dita necessária para a democracia.

A cena seria cômica se não fosse trágica: o presidente da casa, senador José Sarney (PMDB-AP), fazia nessa semana um discurso em homenagem ao ilustre escritor Euclides da Cunha, autor de Os Sertões, falecido há exatos 100 anos. O discurso de Sarney foi interrompido pelo senador Eduardo Suplicy (PT-SP), que lhe exige explicações sobre as denúncias engavetadas pelo Conselho de Ética, pedindo sua renúncia. Sarney encerra o assunto dizendo que aquilo era uma afronta à memória de Euclides da Cunha. E simplesmente não responde às acusações.

Justiça seja feita: Euclides da Cunha, vivo estivesse e senador fosse, seria o primeiro a enfrentar naquela casa a arrogância do seu confrade Sarney (ambos são imortais da Academia Brasileira de Letras). Euclides, ainda jovem, foi expulso do exército imperial brasileiro quando, num desfile militar em homenagem ao ministro de guerra, saiu da fila e jogou sua baioneta aos pés do homenageado em protesto contra a monarquia. Sua morte também se deu numa situação deprimente: ele se vira traído por sua esposa; tentou se vingar do amante e acabou sendo assassinado por ele. O homem homenageado por Sarney foi um inquieto diante da injustiça e da hipocrisia; alguém que a sociedade tentou conter em nome da “etiqueta política” que ele, já no início da república, questionou profundamente.

E há mais coincidência para conseguirmos rir daquela cena trágica no senado: Euclides da Cunha brilhou justamente como jornalista correspondente do jornal O Estado de São Paulo, o mesmo centenário veículo de comunicação que agora teve a coragem de publicar as conversas que comprovam corrupção na dinastia Sarney; o mesmo jornal que os Sarney conseguiram agora censurar.

Deixando a alta literatura dos acadêmicos de lado, Suplicy tentou em seguida um apelo bem popular no Brasil: mostrou cartão vermelho para Sarney, exigindo que ele seja “expulso de campo”. Mas quem presidia a sessão era o correligionário de Sarney, senador Mão Santa (PMDB-PI), que escrachou no mesmo jogo de linguagem: “quem está com o apito aqui sou eu”. Não tem jeito mesmo. Um senado assim faz inveja à imoralidade do próprio Calígula.

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